|
SISTEMAS
BIOMÉTRICOS DE IDENTIFICAÇÃO PELA IMAGEM FACIAL
(*)Dr. George Felipe de Lima Dantas -
Consultor em Segurança Pública
consultoremsegpub@hotmail.com
A biometria, expressão em uso desde o início do Século XX,
trata do estudo e análise estatística de fenômenos
quantitativos pertinentes a objetos de estudo das ciências
biológicas. Mais recentemente, a expressão passou a ser
também utilizada para designar as novas tecnologias da moderna
ciência da informação, hoje utilizadas para a identificação
humana a partir da análise de características individuais.
Esse é o caso da identificação individual pela estrutura da
íris ou da retina, bem como da análise da imagem facial. Nesse
contexto, os sistemas biométricos são processos automatizados
de identificação, estando baseados nas características
fisiológicas ou comportamentais dos seres humanos.
O sistema biométrico de identificação pela imagem facial
baseia-se na característica única de cada face humana. De
maneira geral, um sistema biométrico de identificação pela
imagem facial funciona da seguinte maneira (três etapas):
Um sensor, ou câmera digital, registra a imagem facial. Para
evitar que um rosto falso, ou mesmo um molde seja apresentado
diante do sensor, alguns sistemas requerem que o identificado
sorria, pisque, ou se mova, de tal maneira que fique patente que
a face apresentada realmente pertence a um ser humano. O
registro tomado é a "assinatura biométrica facial"
do indivíduo;
Em seguida é gerado um algoritmo que representa a assinatura
biométrica facial normalizada, ou padronizada, de tal forma que
ela fique no mesmo padrão, tamanho, resolução e posição de
outras assinaturas faciais existentes na base de dados onde ela
será arquivada. A normalização da assinatura biométrica
facial produz uma "assinatura biométrica facial
normalizada";
A assinatura facial normalizada é então comparada com um
conjunto de várias outras assinaturas faciais normalizadas
existentes na base de dados do sistema, sendo estabelecido um
"escore de similaridade" entre elas. O escore, por
exemplo, de zero a cem, determina a probabilidade da identificação
ser positiva.
Mais detalhadamente, o reconhecimento facial se inicia com o
sensor processando ou, na linguagem usual, "escaneando"
uma imagem facial individual. Um dos tipos de processamento
consiste em buscar e definir picos e depressões existentes na
face, registrando-os como pontos nodais. De acordo com essa técnica,
são definidas, registradas e medidas as distâncias entre vários
pontos nodais: olhos, nariz, cavidade orbital, ossos laterais da
face e do queixo. As medidas são então transformadas em um
algoritmo, que passa a ser a "matriz" da assinatura
biométrica facial daquele indivíduo.
Um algoritmo, definido de modo geral, é uma seqüência
finita de instruções a serem realizadas, cuja execução
conduz à resolução de um problema. O algoritmo fornece a solução
genérica de um problema e pode ser utilizado todas as vezes que
o mesmo tipo de problema for apresentado. A exemplo, o algoritmo
da divisão é genérico, não dependendo dos números que devam
ser divididos.
O algoritmo da assinatura biométrica facial é representado
pela "matriz", arranjo retangular de números
semelhante a um formulário de palavras cruzadas que em lugar de
letras contém números. A matriz é desenvolvida de acordo com
um conjunto de cálculos matemáticos especialmente utilizado
pelo sistema computacional. A matriz é então comparada com
outras matrizes arquivadas na base de dados, sendo estabelecido
o escore para cada comparação. As comparações
"verificam" ou "reconhecem" a identidade
individual.
A verificação de identidade é um processo simples de
comparação, com a matriz da imagem apresentada sendo comparada
com uma outra matriz daquele mesmo indivíduo. A matriz interna
de comparação terá sido previamente arquivada na base de
dados, em nome da mesma pessoa cuja identidade está sendo agora
verificada. Já o reconhecimento é feito pela comparação da
matriz do indivíduo a ser identificado com várias matrizes
previamente arquivadas no sistema.
Em situações comuns, a verificação de identidade é feita
quando a fotografia de uma cédula de identidade é comparada
com a face do portador do documento. Já o reconhecimento é
procedido, por exemplo, quando a vítima identifica o criminoso
entre vários indivíduos apresentados.
São muitas as áreas de aplicação da tecnologia biométrica
de identificação facial, dentre elas: contra-terrorismo, na
busca de reconhecer terroristas que estejam circulando em locais
sensíveis como aeroportos; no controle parlamentar, quando da
verificação da identidade dos legisladores por ocasião das
votações; no controle da circulação, entrada e saída de
funcionários e internos de estabelecimentos prisionais; na
busca de crianças desaparecidas em meio a multidões; na
segurança residencial, com o sistema emitindo alarmes quando se
aproxima alguém cuja face não é reconhecida entre as de indivíduos
autorizados; no comércio eletrônico (pela Internet), na
verificação da identidade de usuários de cartões de crédito;
durante pleitos eleitorais, na verificação da identidade dos
eleitores; bem como na atividade bancária, quando da verificação
da identidade de correntistas fazendo transações financeiras.
O Escritório de Desenvolvimento de Tecnologias de Combate a
Drogas, órgão do Departamento de Defesa dos Estados Unidos da
América, juntamente com o Instituto Nacional de Justiça,
pertencente ao Departamento de Justiça (equivalente ao Ministério
da Justiça do Brasil), desde 2001 estão avaliando diferentes
sistemas biométricos de identificação facial desenvolvidos
por empresas e instituições de pesquisa. Os sistemas avaliados
devem servir, basicamente, para eficaz e eficientemente
verificar e reconhecer a identidade facial individual.
O presídio de El Hongo, localizado no estado mexicano da
"Baja California", constitui um exemplo bastante atual
da utilização de sistemas de reconhecimento facial no controle
de estabelecimentos penais. Em 2002 a empresa comercial
norte-americana ImageWar Systems (IW) firmou um acordo comercial
com a administração daquele estabelecimento, no sentido de dotá-lo
de um Sistema de Captura de Criminosos ["Crime Capture
System" (CCS)] que utiliza um software de Identificação
Facial [Face ID software]. O CCS possibilitará que El Hongo
cadastre e acesse automaticamente as imagens e registros
criminais de seus internos, com o arquivo virtual ficando
situado numa base de dados central. O arquivo inclui imagens da
face, cicatrizes, tatuagens e outros sinais particulares de
identificação de cada prisioneiro.
El Hongo, tido como um dos mais seguros e tecnologicamente
avançados estabelecimentos penais da América Latina, irá
utilizar o "Face ID" para identificar funcionários,
internos e familiares visitantes, simplificando investigações
e verificações de identidade. Num acordo bilateral pioneiro, o
sistema irá permitir também que as autoridades prisionais
mexicanas troquem informações com seus homólogos das organizações
policiais norte-americanas da região fronteiriça entre os dois
países.
A tecnologia de reconhecimento pela imagem facial
"aconteceu" em pouco mais de dez anos... Os trabalhos
iniciais na área datam do final dos anos 80, com os primeiros
sistemas sendo disponibilizados comercialmente já no início da
década seguinte. Ainda que muitos possam achar que o interesse
no reconhecimento facial surgiu apenas após as tragédias de 11
de setembro de 2001, data dos ataques terroristas aos EUA, meses
antes, em Tampa, Flórida, a identificação facial biométrica
já era notícia nacional.
Durante a partida final de "futebol americano" do
campeonato de 2000, e sem que as pessoas que compareceram ao estádio
de Tampa soubessem, seus rostos foram comparados com os
registros de rostos de criminosos constantes da base de dados da
polícia local. Grupos de ativistas de direitos civis
contestaram a legalidade do procedimento, alegando sua intrusão
na intimidade das pessoas presentes.
Apesar dos eventuais protestos, é muito boa a receptividade
aos sistemas biométricos de identificação facial. Ele é bem
menos inconveniente que outros existentes, caso do sistema de
reconhecimento pela imagem da retina, e que demanda considerável
esforço cooperativo da parte do indivíduo que está sendo
identificado. Sistemas que identificam através da íris,
retina, ou até mesmo de impressões papiloscópicas, via de
regra são considerados invasivos à privacidade das pessoas. Os
papiloscópicos, mais especificamente, guardam uma séria conotação
negativa, na medida em que evocam a relação entre identificação
e crime. Já o reconhecimento biométrico pela expressão
facial, pela analogia com a operação intuitiva e normal de
identificação visual entre seres humanos, é muito melhor
aceito.
É bastante oportuno o surgimento dos primeiros produtos da
moderna tecnologia biométrica de identificação pela expressão
facial, mormente no momento em que o governo federal brasileiro
considera a constituição de uma base única nacional de
identificação civil. No caso da implementação de um sistema
tal, dele poderão ser derivadas diferentes aplicações,
contemplando áreas de interesse tão diversas como a segurança
pública, bancária e das instalações, bem como comércio
eletrônico, justiça eleitoral e muitas outras mais. A lista de
possíveis aplicações, no controle de acesso físico ou lógico,
inclui aspectos tão revolucionários como a assinatura virtual
de documentos, acesso a cofres eletrônicos, clubes, escolas e
tantas outras possibilidades quantas possam ser imaginadas. Ao
que parece, existe um enorme potencial por ser explorado nesse
amplo universo tecnológico que é a identificação biométrica
e que apenas começa a se descortinar para a humanidade.
(*) Doutor pela "The George Washington University"
de Washington, D.C., EUA. Major (Reformado) da Polícia Militar
do Distrito Federal/Brasil. Consultor em assuntos de segurança
pública do Ministério da Justiça, Câmara Federal de
Deputados e Secretaria de Estado de Segurança Pública do
Distrito Federal. É também instruto das disciplinas de
sociologia do crime, criminologia e análise criminal da Escola
de Governo do Distrito Federal.
FONTES VIRTUAIS DE REFERÊNCIA:
Algoritmo. Wikipedia, la Enciclopedia Libre. http://es.wikipedia.org./wiki.cgi?Algoritmo.
Acessado em 25 de dezembro de 2002.
El Algoritmo Informático. Claudio Gutiérrez. Universidad de
Costa Rica. http://cariari.ucr.ac.cr/~claudiog/El_algoritmo_informatico.html.
Acessado em 25 de dezembro de 2002.
Face Recognition 101: The Technology and Its Applications.
DoD Counterdrug Technology Development Program Office and the
National Institute of Justice. August 10, 2001. http://www.dodcounterdrug.com/facialrecognition.
Acessado em 23 de dezembro de 2002.
Facial Recognition. The National Center for State Courts. http://ctl.ncsc.dni.us/biomet%20web/BMFacial.html.
Acessado em 24 de dezembro de 2002.
How Facial Recognition Systems Work. How Stuff Works. http://www.howstuffworks.com/facial-recognition.htm.
Acessado em 24 de dezembro de 2002.
ImageWare Arms Patrol Cars in Downers Grove with Digital
Mugshot and Booking Information. 2002 News Releases. News &
Events. IWS ImageWare Systems, Inc. http://www.iwsinc.com/downers.cfm.
Acessado em 24 de dezembro de 2002.
ImageWare Brings Facial Recognition and Digital Imaging
Systems to Baja Prison. 2002 News Releases. News & Events.
IWS ImageWare Systems, Inc. http://www.iwsinc.com/baja.cfm.
Acessado em 24 de dezembro de 2002.
Les applications. Le marché de la biométrie. La Biometrie
Online. http://biometrie.online.fr/.
Acessado em 25 de dezembro de 2002.
.
|