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GESTÃO CIENTÍFICA DA SEGURANÇA PÚBLICA: "ESTATÍSTICAS
CRIMINAIS"
(*)Dr. George Felipe de Lima Dantas -
Consultor em Segurança Pública
A análise de estatísticas criminais em prol da segurança pública
é um processo sistemático de produção de conhecimento,
realizado a partir do estabelecimento de correlações entre
fatos delituosos ocorridos (constantes de boletins de ocorrências
policiais) e padrões e tendências da criminalidade num
determinado tempo e lugar.
É de entendimento intuitivo a necessidade, da parte do
Estado, do conhecimento advindo da análise de estatísticas
criminais. Através delas, a segurança pública pode gerir
eficaz e eficientemente seus recursos, com o propósito de
controlar, e o fim último de neutralizar, manifestações da
criminalidade e da violência.
A necessidade dos produtos informacionais da análise das
estatísticas criminais é hoje tão pacificamente aceita que,
de acordo com o Centro para Prevenção Criminal Internacional
da Organização das Nações Unidas (ONU), "um número
crescente de países contribui com as pesquisas criminais
globais realizadas pela ONU, no que diz respeito a estatísticas
de delitos de ocorrência clássica" (homicídios, roubos,
estupros, arrombamentos, fraudes e lesões corporais)". Ou
seja, a estatística criminal já é prática doméstica tão
consagrada nos países da comunidade internacional que passou a
ser sistematicamente consolidada em documentos globais da ONU.
A exemplo do que seja a análise de estatísticas criminais,
ela inclui a utilização, dentre outras funções estatísticas,
da análise de dispersão de dados de ocorrências policiais,
enquanto parte de uma série histórica de um determinado lugar.
A análise de dispersão permite, a exemplo, determinar a influência
de fatores como os horários de ocorrências sobre a freqüência
delas ao longo das 24 horas. A análise de dispersão mostra que
é possível determinar a dispersão dos valores da variável
"horário de cometimento do ilícito" ao redor de sua
média aritmética: numa distância de um desvio padrão ao
redor do horário médio estarão concentradas cerca de 68,8% de
todas as ocorrências, de dois desvios estarão cerca de 95%
delas, enquanto rês desvios, para mais ou para menos da média,
determinarão a dispersão de 99% dos horários de todas as
ocorrências. A CIDADANIA PODE, ASSIM, ESCOLHER O NÍVEL DE
RISCO A QUE ACEITA FICAR EXPOSTA, freqüentando os espaços públicos
em horários de maior ou menor risco...
Os produtos da análise criminal também servem o propósito
de apoiar as áreas estratégica, tática e administrativa das
organizações de segurança pública, orientando o planejamento
e emprego de recursos humanos e materiais no sentido da prevenção
e repressão do fenômeno da criminalidade. Os produtos da análise
criminal contribuem, de maneira específica, para as atividades
de investigação, prisão de delinqüentes e esclarecimento de
crimes, bem como norteiam a gestão das organizações policiais
no suporte daquelas mesmas atividades.
Os produtos da análise de estatísticas criminais, de
maneira geral, constituem as bases sobre as quais é realizada a
gestão do policiamento ostensivo e da investigação criminal.
Segundo William Bieck, "a análise criminal inclui a
identificação de parâmetros temporais e geográficos do
crime, proporcionando indicações que poderão contribuir para
seu esclarecimento, incluindo a identificação de delinqüentes
eventuais e contumazes e a reunião de informações em prol da
inteligência policial".
A "inteligência policial" é "o conhecimento
geral das condições passadas, presentes e projetadas para o
futuro de uma comunidade, (incluindo, na visão policial)
problemas potenciais e atividades ilícitas". Assim como a
inteligência policial pode ser entendida como um simples
processo de produção de informação confiável sobre
problemas potenciais, ela também pode constituir-se-á num
processo complexo, envolvendo a avaliação de situações ou
fatos, em curso, que digam respeito às atividades ilícitas de
indivíduos ou organizações sistematicamente engajadas no
crime.
Uma peculiaridade da inteligência policial é a busca e
obtenção de "dados negados" (ocultos) sobre o crime,
criminosos e questões conexas, elementos de informação impossíveis
de serem obtidos direta e abertamente de suas fontes.
Classicamente, a inteligência policial está voltada para o
controle de questões sensíveis de manutenção da ordem pública
(a exemplo, manifestações e protestos violentos), bem como
atividades ilícitas encobertas, incluindo terrorismo, tráfico
de drogas e outras modalidades do crime organizado local,
nacional ou transnacional. As estatísticas criminais,
entretanto, um dos eventuais objetos do processo de análise de
inteligência, não constituem domínio específico da inteligência
policial, já que envolvem conhecimento de fatos ocorridos no
seio da comunidade, portanto de domínio público.
As bases de dados sobre a criminalidade são os objetos
centrais sobre os quais são elaborados os produtos da análise
criminal, que por sua vez utiliza funções estatísticas clássicas.
O Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP), de junho de
2000, em sua ação de número 123, compromisso 15,
"Sistema Nacional de Segurança Pública", prevê a
construção de uma "Base de Dados para o Acompanhamento
das Polícias", ação que vai enunciada no plano nos
seguintes termos:
"Criar um programa informatizado que permita acompanhar,
por intermédio de planilhas (eletrônicas), as características
operacionais das forças policiais brasileiras, incluindo dados
de desempenho, treinamento, ocorrências atendidas e
transformadas em inquéritos, delitos esclarecidos, controle de
munição e armamento, tipo de equipamentos utilizados,
etc".
Após este breve ensaio sobre a gestão científica da
segurança pública, em sua correlação com as estatísicas
criminais, aconselha-se o leitor a ir adiante, explorando o tema
ainda mais profundamente. Quanto mais souber a cidadania, tanto
melhor. Talvez assim possa ficar mais transparente para a nação
o fato de que a segurança pública, tal qual vários outros
setores da gestão, não só pode, como deve ser cientificamente
gerida.
Brasília, 30 de outubro de 2002
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