Marco Aurélio Álvares da Silva
Prof. Mestre em Química Inorgânica pela
Unicamp
Perito Criminal
Quando se estuda impactos de projéteis, procuramos sempre observar em que
circustâncias eles ocorreram, sendo importante determinar o sentido, direção
e ângulos. Além disso, pelos danos e soluções de continuidade
existentes, permitirão conhecer o tipo de arma ou carga, lembrando que no
caso de armas semi-automáticas muitos cartuchos permanecem no local
examinado. Assim sendo, o estudo de todo impacto possui as seguintes variáveis:
Sob o ponto de vista técnico e jurídico, as
soluções de continuidade transfixantes são importantes porque permitem
distinguir o orifíco de entrada do de saída.
As soluções de continuidade produzidas por arma
de fogo em lâminas de vidro possuem características variadas quando se
estudam tais impactos. Não se tratam de alvos duros, maciços, e sim de
sistemas elásticos.
Quando o projétil atinge a superfície de uma lâmina
de vidro fica estabelecido um ponto de impacto. A partir deste ponto de
contato irradiam-se fraturas em decorrência do flexionamento que a superfície
está recebendo. O vidro, pode ser considerado como um líquido, pouco
compressível e elástico, e sua flexão ocorre no mesmo sentido da força
exercida. Portanto, devido ao afastamento progressivo a nível molecular,
tranversalmente ao eixo de impacto, a coesão e a tensão supercial são
vencidas, ocorrendo o início das fraturas.
O comportamento do vidro está associado ao
conjunto de fraturas que podem ser originadas quando de tais impactos.
Podemos ter fraturas concêntricas e radiais e conforme a intensidade das
mesmas podemos efetuar as análises periciais.
O ponto inicial de uma fratura é onde ocorre a
maior distensão, ponto em que supera-se a coesão do material. As fraturas
podem ser classificadas como radiais e concêntricas. As fraturas radiais
iniciam-se na face oposta ao ponto de impacto, enquanto que a concêntricas
tem início na face adjacente. As fraturas propagam-se, aparentemente, em
forma de onda, gerando linhas susceptíveis de interpretação dinâmica, as
quais são observáveis em perfil. Essa linhas são decorrentes das variações
a nível molecular, alterando as camadas lamelares da placa.
A fim de reproduzir as linhas que surgem do
impacto de um projétil de arma de fogo, bem como estudá-las, vale-se do
uso da Fotoelasticimetria. A Fotoelasticimetria baseia-se na propriedade que
certas substâncias transparentes (que em condições normais não causam
fenômenos de polarização da luz apresentam de agir como polaróides
quando submetidas a tensões mecânicas. A luz polarizada, em termos
simples, corresponde às radiações eletromagnéticas visíveis cujos
campos elétricos oscilam em um único plano. Assim sendo, um banco
fotoelasticimétrico é uma peça de construção simples, provido de luz
monocromática (vapor de sódio), polaróides e máquina fotográfica. As
linhas, ou estriado, aparecem onde existem tensões mecânicas e suas
estrias são tanto mais próximas entre si quanto maior é a tensão mecânica
a que está submetida a região observada. Segue um registro fotográfico de
um tubo de vidro , que foi aquecido e depois rapidamente resfriado, sem
maiores cuidados. Em consequência, o tubo guarda tensões internas e que são
visíveis:
No caso de superfícies atingidas por projéteis
de arma de fogo, o mesmo ocorre, restando as estrias devido ao flexionamento
da placa.
Via de regra, a principal característica uma
perfuração ocasionada por projétil de arma de fogo é a cratera na face
oposta à origem do tiro, correspondente ao cone de percussão. A cratera
pode ser circular ou oval, conforme a incidência tenha sido perpendicular
ou oblíqua. No caso de disparos contra lâminas de vidro de segurança do
tipo laminado, do tipo utilizado em automóveis, é onde encontram-se vestígios
detalhados sobre o apresentado até aqui. Em alguns casos o impacto provoca
o estilhaçamento total, não sendo possível a realização de tal estudo,
como é o caso dos temperados.
O vidro
O vidro é uma substância inorgânica, homogênea
a amorfa, obtida através do resfriamento de uma massa em fusão. Suas
principais qualidades são a transparência e a dureza. O vidro distingue-se
de outros materiais por várias características: não é poroso nem
absorvente, é ótimo isolador (dielétrico), possui baixo índice de dilatação
e condutividade térmica e suporta pressões de 5.800 a 10800 Kg por centímetro
quadrado. O vidro comum recozido é usado em construções há quase 2.000
anos. Sua origem remonta a pelo menos 4.000 anos antes da Era Cristã.
Em sua composição podemos encontrar:
-
óxido de silício - matéria prima básica
vitrificante
-
óxidos de metais alcalinos
-
óxidos de metais alcalino terrosos
-
alumina
-
cloretos e nitritos
-
oxidos corantes (cobalto, ferro, selênio)
-
sucata de vidro - empregada na proporção de
20 a 40% - auxilia na fusão
A 800 graus centígrados a mistura atinge o
estado pastoso, fundindo-se por completo ao atingir cerca de mil graus.
Existem 4 processos de fabricação do vidro: Fourcoult, Pittsburg, Libbey
Owens e Float-Glass.
Vidros de segurança
Os vidros de segurança podem ser de três tipos:
-
laminado
-
temperado
-
aramado
Vidro laminado
É um vidro de segurança composto de duas ou
mais lâminas de vidro interligadas por camadas alternadas de uma resina
muito resistente e flexível, geralmente polivinil butiral, formando uma
estrutura capaz de suportar os mais violentos impactos. O vidro laminado
pode ser fabricado com o vidro monolítico comum, endurecido a quente sob
pressão ou quimicamente, ou temperado, dependendo dos requisitos do
projeto. As películas possuem espessuras da ordem 0,38 a 1,52 mm, em
larguras máximas de 2,80 m, com índice de refração de 1,485.
Geralmente são classificados em dois tipos: I e
II. A certificação à Categoria I requer que a vidraça suporte impacto de
150 ft-lb, produzido pelo impacto de um saco de peso de 100 lb, largado de
uma altura vertical de 18 polegadas. A certificação à Categoria II requer
que a vidraça suporte o impacto de 400 ft-lb, produzido pelo impacto de um
saco de peso de 100 lb, largado de uma altura vertical de 48 polegadas.
O desempenho de vidro à prova de bala nos EUA é
especificado pelo teste UL752. O vidro laminado à prova de bala é múltiplo,
ou seja possui várias lâminas aderidas, e isso permite a resistência de
projéteis disparados de armas de fogo variadas. Um laminado múltiplo pode
atingir até 50 mm de espessura.
Em setembro de 1980, o 2º Exército - 2ª RM
divulgou resultados de testes efetuados com painéis constituídos de 4 a 8
chapas de 5 mm, disparos perpendiculares, a uma distância de 12 metros, com
armas 9mm (pistola e Metralhadora Beretta), Fuzil 7,62 M964 (FAL). Não
foram constatadas perfurações. Os testes foram efetuados a pedido da
Blindex. Existem os laminados com camadas de ar ou à vácuo, mas são
destinados para outras situações.
Vidro temperado
O vidro é colocado no forno, pendurado através
de pinças e submetido a uma temperatura de aproximadamente 600 graus centígrados
até atingir seu ponto ideal. Neste momento, recebe um resfriamento brusco,
através de um soprante que joga ar sob pressão, o que vai gerar o estado
de tensão. O estado de tensão nada mais é do que estabelecer tensões
elevadas de compressão nas zonas superficiais do vidro, com correspondentes
altas tensões de tração no centro do mesmo.
Vidro aramado
É aquele que possui um retículo metálico em
seu corpo.
Impactos em vidros diversos
Vidro monolítico comum
Quebra-se facilmente. Quebra típica, memso com
os mais espessos. Produz estilhaços longos de extremidades afiadas.
Vidro temperado
Requer uma energia de impacto maior para quebrar,
mas se despedaça completamene quando quebrado. Poucos pedaços de vidro
permanecem na moldura.
Vidro laminado
Quebra com segurança. Pode rachar sob impacto,
mas permanece integral. Estilhaços e fragmentos pontiagudos aderem à
camada intermediária.
Vidro aramado
Quebra-se de forma similar ao anterior.
Fragmentos em forma dentilhada ficam ao redor do orifício, porém mais pedaços
de vidro permanecem no lugar em torno do ponto de penetração. Corta os
arames e os deixa em saliência
Bibliografia
-
O Vidro, Sua História e Fabricação - O
Vidro de Segurança - Blindex - Catálogo Técnico
-
Enciclopédia Ciência Ilustrada,
Fotoelasticimetria, página 2510, volume 6, Editora Abril, 1971
-
Catálogo Técnico do Saflex, Monsanto do
Brasil S.A.
-
Patologia dos Envidraçamentos, A Construçao,
Ary Rodrigo Perez, IPT, N º 1947, página 15, 1985
-
Comunicação do Ten.Cel. Wesley José Soares
à Blindex, Ofício Nº 97-DT, 15/09/80
-
Tiro Sobre Placa de Vidro, Introdução à
Balística Forense, Eraldo Rabello, volume II, página 319