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NOVOS
RUMOS DA INTELIGÊNCIA POLICIAL
(*)Dr. George Felipe de Lima Dantas -
Consultor em Segurança Pública
consultoremsegpub@hotmail.com
INTRODUÇÃO
A “atividade policial guiada pela inteligência” (“intelligence-led
policing”) é um termo que muito recentemente começou a ser
usado no Canadá e Estados Unidos da América (EUA). Função até
mesmo dessa novidade de uso, a expressão ainda não tem uma
definição única, plasmada pelo consenso geral. É de
entendimento comum, entretanto, que a “atividade policial
guiada pela inteligência” inclua, fundamentalmente, a coleta
e análise de informação para elaboração de um produto
final—conhecimento—criado para instrumentar o processo decisório
da gestão policial, tanto através da análise criminal tática
quanto estratégica.
ANÁLISE CRIMINAL TÁTICA
A atividade de inteligência policial, através da análise
criminal tática, consiste num processo de produção de
conhecimento que dá suporte às atividades operacionais de
investigação e policiamento ostensivo. Entenda-se que a análise
aqui referida compreende o ato de separar as diversas partes do
fenômeno da criminalidade, examinando cada uma delas com o fito
de conhecer sua natureza, proporções, funções e relações.
Assim, a análise criminal tática busca subsidiar uma pronta
resposta às ocorrências criminais havidas num determinado
tempo e lugar. O conhecimento produzido pela análise tática é
instrumental para a gestão dos elementos operacionais, através
da determinação de padrões e tendências criminais num
determinado espaço geográfico-temporal, usualmente favorecendo
a prisão de delinqüentes.
O objetivo da análise criminal tática, portanto, é a
identificação de “tendências” imediatas (evolução
quantitativa e respectiva distribuição espaço-temporal), bem
como dos “padrões” correntes da criminalidade (modus
operandi), aí incluídas seqüências de baixa, média e alta
freqüência de ocorrências, bem como a determinação dos
chamados “pontos quentes”, locais de rápida acumulação de
fatos delituosos.
Um “ponto quente” é uma condição ou estado que indica
alguma forma de aglomeração numa distribuição espaço-temporal
de ocorrências criminais. A título de apresentação de “um
critério entre vários”, o Departamento de Polícia da Cidade
de Baltimore (Maryland, EUA) identifica os pontos quentes de sua
área de jurisdição de acordo com um “triplo critério”:
freqüência (f), posição geográfica (g) e tempo de intervalo
das ocorrências (t). Para que um ponto seja considerando
“quente”, pelo menos dois delitos deverão ter ocorrido (f)
numa pequena área do espaço geográfico (g), num espaço
temporal não maior que de uma a duas semanas entre as ocorrências
(t).
A análise tática inclui a associação de dados relativos a
ocorrências específicas com informação advinda de grandes
bases históricas de dados de ocorrências policiais, visando o
estabelecimento de relações de pertinência de variáveis
(correlações), tais como método (modus operandi), data-hora,
local, e veículo(s) utilizado(s), entre outras possibilidades.
Tudo isso com a finalidade de identificar e prender criminosos.
Em outras palavras, através da identificação de aspectos
específicos de ocorrências do fenômeno da criminalidade, a análise
tática produzirá indicações que levarão a um rápido
esclarecimento de casos/ocorrências, através da vinculação
de um determinado indivíduo e seu modus operandi à autoria de
um delito que está sendo investigado num dado momento.
ANÁLISE CRIMINAL ESTRATÉGICA
A atividade de inteligência policial, através da análise
criminal estratégica, está voltada para a resolução de
potenciais problemas de segurança pública de médio e longo
prazos. Ela trabalha baseada em “projeções de cenários”,
formuladas a partir de possíveis variações dos indicadores de
criminalidade. A análise criminal estratégica inclui a realização
de estudos e respectiva elaboração de planos para a identificação
e aquisição de recursos futuramente necessários para a gestão
policial.
Também pode ser considerado que esse tipo de análise está
voltada para a formulação de estratégias operacionais na
busca de soluções para problemas gerais de natureza corrente.
Assim, através dela se produzirão informações para a alocação
dos recursos institucionais na atividade fim, incluindo a
configuração das áreas físicas de atividade policial, bem
como os dias, horários e formas de emprego da força policial.
Também buscará identificar atividades criminais correntes,
fora do seu padrão comum de ocorrência, a exemplo, com freqüência
superior aos valores usuais e/ou consumadas em tempos diversos
da sua distribuição sazonal regular.
A análise estratégica identifica condições anômalas na
segurança pública, possibilitando um redimensionamento da
prestação dos serviços policiais, otimizando assim sua
efetividade, eficácia e eficiência. Tais atributos ficam
manifestos na redução ou supressão de problemas crônicos,
podendo eventualmente contribuir para isso a implementação de
políticas comunitárias e de resolução de problemas na gestão
da segurança pública.
A gestão policial, ao adotar a filosofia do policiamento
comunitário, muda sua atividade clássica, tradicionalmente
reativa e focada no chamado "combate ao crime".
Conforme o novo paradigma, comunidade e polícia passam a
interagir, gerando conhecimento para a busca de soluções para
uma extensa gama de problemas de segurança pública. Entre tais
problemas estará não só o "controle" do crime e da
violência (em contraposição ao antigo conceito de
"combate ao crime"), mas também a neutralização da
"sensação de insegurança" trazida pelo medo do
crime e da desordem.
A “ATIVIDADE POLICIAL GUIADA PELA INTELIGÊNCIA”
A “atividade policial guiada pela inteligência” é um
modelo de atividade policial em que a inteligência serve como
guia para realização de atividades policiais, em lugar do
reverso disso. O conceito é inovador, e de certa forma radical,
já que está baseado na moderna premissa da gestão policial de
que a principal tarefa da polícia é prevenir e detectar a
criminalidade, em lugar de apenas reagir às ocorrências deste
fenômeno social.
A gestão policial, no mundo inteiro, vem lidando com óbices
a cada dia maiores. O velho “fazer” da atividade policial,
modernamente enfrenta situações em que forças econômicas,
sociais e políticas produzem efeitos que permeiam todas as
atividades humanas. Se considerarmos como fato positivo para o
entendimento da criminalidade pela gestão policial a noção de
que a motivação fundamental da delinqüência continua sendo o
velho conceito da ambição, o mesmo já não acontece em relação
aos recursos e oportunidades dos criminosos. Os recursos e
oportunidades da criminalidade aumentaram exponencialmente, bem
como o tamanho dos ganhos potenciais da delinqüência. A
atividade policial precisa hoje lidar com modalidades do fenômeno
da criminalidade que seriam irreconhecíveis por policiais da
geração anterior. Some-se a isso o fato de que a gestão
policial é cada vez mais tensionada por uma situação econômica
em que os recursos de gestão são cada vez mais escassos.
O velho padrão de gestão reativa, conforme aponta a atual
situação caótica da segurança pública brasileira, já não
é mais viável. Também já não são mais tão aplicáveis
velhos modelos de percepção do fenômeno da criminalidade e do
comportamento criminal. A moderna gestão da inteligência
policial, enquanto força propulsora dessa atividade essencial,
pode ser um fator chave para a sobrevivência das atuais
instituições policiais do Brasil.
Qualquer que seja o modelo específico de “atividade
policial guiada pela inteligência”, tal paradigma de gestão
demandará forte comprometimento institucional, capaz de superar
velhas práticas e preconceitos. Seus gestores deverão estar
preparados para distanciarem-se de velhos métodos e técnicas;
terão de acreditar firmemente que as operações policiais
podem, e devem, ser guiadas pela atividade de inteligência; terão
ainda que pautar como princípio a ação, e não a reação,
numa virada histórica em relação ao antigo paradigma reativo.
Deverão, enfim, acreditar no processo de produção de
conhecimento que a inteligência policial enseja, confiando em
suas avaliações e recomendações. Tudo isso é bastante difícil
e, de certa forma, doloroso, considerando que implica mudar.
(*) Doutor pela "The George Washington University"
de Washington, D.C., EUA. Major (Reformado) da Polícia Militar
do Distrito Federal/Brasil. Consultor em assuntos de segurança
pública do Ministério da Justiça, Câmara Federal de
Deputados e Secretaria de Estado de Segurança Pública do
Distrito Federal. É também instruto das disciplinas de
sociologia do crime, criminologia e análise criminal da Escola
de Governo do Distrito Federal.
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